
Cicloturista pedala bike de bambu
em 1.300 km da Carretera AustralTexto
e fotos de Klaus Volkmann - kaos_loro@hotmail.com
http://ecobamboobikes.blogspot.com/
Como de costume,
passei o ano planejando minha próxima viagem, mas dessa vez resolvi construir
o meu próprio meio de transporte. Em agosto de 2008 desisti temporariamente
dos meus planos de construir uma bicicleta reclinada como as M5 holandesas.

Apesar de eu adorar
o design e a geometria dessa bicicleta, eu não iria conseguir aprimorar
a técnica de entortar o bambu a tempo de terminar de construir a bike
para o verão e, por isso, voltei minha atenção para as
high racer, que têm o desenho simples. Mesmo assim seria um desafio terminar
de construir a bike a tempo.
Missão cumprida.
Terminei a bike pouco antes do Natal de 2008 e levei a numa bicicletaria para
montar as peças.
Fiz alguns testes
de uma meia dúzia de quilômetros. Um dos primeiros rolês
foi um passeio do POA Bikers. Arrumei o que faltava na bike, comprei a passagem
e fui para Bariloche, na Argentina.
Foram 44 horas
de ônibus até lá e comecei a aventura. Prendi os alforjes
malemá, só para dar para chegar até o camping. Apesar de
eu não ter testado a bicicleta com todo o peso extra, ia tudo bem. Mas
o pobre cubo de marcha começou a incomodar.
A PRIMEIRA
QUEBRA
Eu não tinha
pedalado nem 20 km, quando fui obrigado a parar pois tinha quebrado uma pecinha
que impede o cubo de girar em vão. Fiz a minha primeira grande gambiarra
só pra conseguir pedalar com dificuldades até um camping que eu
tinha visto a pouco.

No outro dia melhorei
a gambiarra e pedalei devagar, e sem a bagagem, até Bariloche para tentar
encontrar alguém que pudesse me ajudar a sair daquela fria. Depois de
passar por quase todas bike shops conheci o Ricky Zuber, da Bariloche Bikes,
que foi corredor profissional de downhill e perito em gambiarras.
Chegamos juntos
a um consenso, e ele construiu uma outra peça igual a que quebrou e,
para garantir, soldamos um pedaço de ferro na guia do cabo que ia até
o bambu. Ficou bom e, sem perder tempo, comprei a passagem de barco para cruzar
a fronteira e pedalei de noite com todas as coisas até um esconderijo
perto de Puerto Pañuelo, pois o barco partiria muito cedo.
NO CHILE
O caminho para
cruzar a fronteira é tenebroso. Começa com uma subida íngreme
de 4 km cheia de pedras de todos tamanhos, montes de pedras recém-despejadas
por um caminhão e muito barro.
Até para
descer tive que ir a no máximo a 10km/h. Chegando na parte de baixo da
montanha ficou melhor e não tive problema na aduana chilena.
Passei a noite
em Ensenada, num camping que ficava na beira de um lago e dava pra ver o vulcão
Osorno da barraca.
Para o outro dia
eu tinha duas opções: seguir até Puerto Montt e pegar um
transbordador direto até Chaitén (fácil, só asfalto)
ou seguir pela borda do Estuário Reloncavi (estrada de chão e
muitos quilômetros).
VULCÃO
ATIVO
Segui pela orla
até encontrar o Oceano Pacífico pela primeira vez e continuei
seguindo ao lado dele até Hornopiren. Foi pouco mais de uma semana para
chegar lá, percorrendo entre 60 e 90 km por dia, dependendo do que eu
encontrava pela frente.
Tive que esperar
três noites, pois só tem dois barcos por semana até Chaiten,
e na noite anterior a viagem começou a chover muito forte e o vento levou
os plásticos que eu tinha posto para proteger os alforjes.
Ao amanhecer, tive
que desmontar a barraca e guardar as coisas embaixo da insistente chuva, além
de ir até um local vendia cafés e lanches no porto que oferecia
um teto para eu deixar a bike.
O barco demorou
uma hora para sair por causa do tempo em mar aberto. Depois, foram nove lentas
horas de viagem, quase o tempo inteiro sob chuva.
Chegando em Chaiten
o tempo parecia que tinha estabilizado mas foi só uma impressão
otimista. A danada chuva voltou com tudo, antes mesmo que eu conseguisse chegar
até a cidade e, por isso tive, que procurar uma pousada sob a pior chuva.
No ano passado
essa cidade foi arrasada pelo Vulcão Chaiten e hoje em dia os únicos
moradores são as pessoas que trabalham com o turismo, em algumas pousadas
e em um mercado. Sequei as roupas e a bagagem no fogão a lenha do lugar
onde dormi.
Segui em direção
sul e cheguei na Villa Santa Lucía, distante 80 km num caminho recheado
com subidas, que serviram de aquecimento para uma escalada e descida final logo
antes da Villa. O local é ponto de encontro de ciclistas, pois é
o primeiro lugar onde se pode cruzar vindo da Argentina.
Logo encontrei
uma pousada bem simples - ao meu estilo - e lá foram chegando ciclistas
até que não cabia mais ninguém. A dona preparou o jantar
para todos.
Segui viagem sempre
rumo ao Sul e fui tranquilo quanto ao trajeto, pois não há erro,
já que só a Carreteria Austral que vai nessa direção.

Fui encontrando
todo tipo de estrada ruim até que cheguei mais perto de Coyhaique (pronuncia-se
Cochaique), onde começou um trecho de uns 160 km de asfalto. Em princípio
foi um alento estar numa estrada boa. No começo parecia uma enorme ciclovia
de tão pouco movimento de carros, mas quanto mais perto da cidade maior
foi ficando o movimento aumentou ao ponto em que cheguei a sentir falta da calmaria
das estradas de rípio.
De Coyhaique segui
pouco mais de uma semana de viagem para chegar a Villa O'Higgins, onde termina
a Carreteira Austral e a minha viagem desse verão. Foram 1.334 km pedalados
em pouco mais de um mês.
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