A vida em duas rodas e nos tribunais: a jornada de Alamy Candido

Há quase 30 anos, paulista concilia rotina intensa de treinos com carreira jurídica e prova que resiliência é a chave para o sucesso em todas as áreas

Bikemagazine
11 de fevereiro de 2025

Alamy em ação – Foto de divulgação Sportograf

Do Bikemagazine
Foto de divulgação

“Meu dia tem 36 horas.” A frase, dita em tom de brincadeira, ilustra a rotina intensa do advogado e ciclista de ultra-endurance Alamy Candido. Há 14 anos à frente do escritório Candido Martins Advogados, com sede em São Paulo e atuação em Madri, ele divide seu tempo entre o trabalho e os treinos diários de ciclismo, esporte que pratica há quase 30 anos.

“Durmo em média 6 horas por noite e acordo às 5h30 todos os dias para treinar. Às 7h, estou na mesa do café com minha família. Faço questão de aproveitar esse momento com minha esposa Camilla e meus filhos Antonio e Arthur. E às 8h30, já estou no escritório. O que facilita essa rotina é morar perto do trabalho. De segunda a sexta, treino em casa, cerca de 1h30, na minha bicicleta, que fica fixada em um equipamento específico. Sigo a orientação de um treinador e uso um aplicativo especializado para esse tipo de treino. Aos sábados, vou pedalar na estrada e aí, são treinos longos de até 4 horas”, relata Alamy.

No currículo de esportista, acumula participações em provas desafiadoras como a Haute Route, realizada na Europa, e a L’Étape, no Brasil. Em 2025, ano em que completa 50 anos, pretende participar de seu último “Haute Route”, nos Alpes Franceses, uma prova de 7 dias com 800km e aproximadamente 20 mil metros de altimetria. Uma das provas mais marcantes de sua carreira foi a edição de 2018, também nos Alpes, com 7 dias de duração.

Em setembro do ano passado, durante a Appenica MTB Stage Race, na Itália, sofreu uma fratura no ombro no primeiro dia da prova. “Tombos e fraturas fazem parte da trajetória, infelizmente. Mesmo saindo da prova, percorri os Apeninos pelo asfalto. Até então, bem tranquilo pela ausência da trepidação”, conta Alamy.

Na carreira jurídica, Alamy Candido acumula mais de 25 anos de experiência, com formação em Direito, Administração e Ciências Contábeis. Especialista em planejamento tributário, estruturação de negócios e planejamento sucessório, já atuou em renomados escritórios brasileiros e no escritório holandês Loyens & Loeff, em Amsterdã. Foi juiz do Tribunal de Impostos e Taxas de São Paulo (TIT-SP) por quatro anos e é reconhecido por publicações internacionais como The Legal 500 e IFLR 1000 como um dos advogados de maior destaque do Brasil e da América Latina nas áreas tributária e private equity.

Natural de Barretos (SP), Alamy teve contato com o esporte desde a infância. Dos 7 aos 14 anos, praticou natação intensamente, chegando a treinar duas horas por dia, de segunda a sexta-feira, em Rondonópolis (MT).

“Eu treinava intensamente para competir pelo Brasil. Foi uma fase muito divertida, mesmo com os treinos intensos. Por isso, essa visão de competição, preparação para lidar com os desafios e com os adversários fortes. Isso vem desde a infância. E é justamente o que se vivencia no mercado da advocacia”, afirma.

A bicicleta, presente em sua vida desde a infância como meio de transporte e diversão, o influenciou a transformar o ciclismo em seu principal esporte.

“A bicicleta me proporcionava liberdade. Eu levantava cedo e ia para a padaria, locadora, para as aulas extracurriculares e para os treinos no clube. Fazia todo o trajeto de bicicleta e, naquela época, isso era possível e seguro. Além disso, tenho uma tia que morou por muito tempo fora e nessas idas e vindas com ela, eu via muito a relação com a bicicleta com o povo europeu e era algo que me chamava muito a atenção. Até que, em 1995, numa viagem de mochila pela Europa, e uma dessas “coincidências da vida”, exatamente quando estava em Paris, justamente quando acontecia a final da volta da França (Tour de France), foi o empurrão que faltava para transformar o ciclismo no seu principal esporte”, relata.

Antes de se dedicar ao ciclismo de montanha em 1999, Alamy também praticou corrida de rua, chegando a participar de provas de 10km e meia maratona. Para ele, o ciclismo e a advocacia compartilham aprendizados importantes, como saber lidar com a concorrência.

“Eu nasci no mês de dezembro. Quando eu competia na natação, por exemplo, tinha a mudança de categoria na virada do ano e isso fazia muita diferença. Meus adversários, que eram teoricamente da minha idade, tinham quase um ano de diferença, eram maiores e mais fortes. Esse é um desafio que você vai enfrentando no esporte e na vida. Por isso, já garanti que meus filhos nascessem no 1º semestre”, brinca.

No entanto, para Alamy, o melhor das competições é o período de treinamento, que leva em média 8 meses. “Tem que ir a campo para experienciar as dificuldades parecidas que você passará na prova. Para o mundo corporativo é igual. Precisa ter paciência, saber celebrar todas as conquistas e apreciar o trajeto”, ensina.

Alamy faz questão de transmitir seu legado esportivo para os filhos, de 11 e 13 anos.

“Somos sócios de um clube tradicional de São Paulo e desde pequenos eles frequentam a escolinha de esportes. Tiveram a oportunidade de experimentar todas as modalidades como natação, handebol, judô, corrida e até mesmo salto e esgrima. O mais velho optou pela natação e o mais novo, pelo polo aquático”.

Os filhos já seguem os passos do pai no amor e na dedicação aos esportes. “Eles já seguem uma rotina de estudos e conciliam com os treinos. As pessoas acham puxado, mas é muito melhor do que ficar em casa, somente no celular ou iPad”, argumenta.

Ao relembrar sua trajetória no esporte, Alamy destaca outros momentos desafiadores que se assemelham aos desafios de sua profissão.

“Esse estilo de esporte exige muita resiliência e foco para enfrentar montanhas íngremes tanto no calor quanto no frio intenso. São competições difíceis e de longa distância, cerca de 800 km, em média. Não dá para você pensar: está difícil, deixa eu descer da bicicleta. É preciso enfrentar. E essa ideia da persistência é essencial também para as minhas funções como advogado”, compara.

Em 2024 pedalou 8 mil km e, em anos de competição, chega a pedalar de 10 mil a 12 mil km. Em algumas competições, ele se hospeda em casas de outros atletas, o que proporciona experiências únicas.

“Conhecemos pessoas diversas, das mais diferentes nacionalidades. Me recordo de uma casa em que fiquei que tinham dois cachorros, um da raça doberman e o outro um pastor alemão. Um deles entrava no quarto à noite, eu morria de medo. São algumas das coisas que você enfrenta”, diverte-se.

Outro momento inesquecível foi durante uma prova nos Pirineus, em 2022.

“Subi uma montanha de 17km de subida, com média de 9% de inclinação. Essas subidas duram em média 2h30 e era um dia extremamente quente. Todo mundo acha que a gente termina a prova e pega o carro para voltar. Não. É preciso descer todo o percurso pedalando também. E eu já tinha terminado e estava retornando, foi aí que cruzei com um amigo, que é dez anos mais velho que eu, e ele ainda estava na metade do percurso e sofrendo muito com o calor. E é sobre isso: não desistir. Todo esse esforço e garra de concluir é muito gratificante quando você chega no seu objetivo”, relata.

Para o ciclista, o esporte ensina sobre amizade, companheirismo e colaboração.

“Independentemente da idade, preparo físico etc. Todas as diferenças ficam inexistentes quando se fala do trabalho em equipe. Outro dia, numa conversa com pessoas fora do ciclismo, comentamos sobre o seriado da Netflix “Tour de France – no coração do pelotão”, que acompanha as equipes profissionais nas provas clássicas. O comentário mais comum foi: achei que o ciclismo era uma prova individualista. E depois do seriado, entendi que para ganhar, precisa de equipe forte”. É justamente essa a mensagem. Ciclismo, advocacia, sucesso, qualquer meta da vida só se tem com equipe, com pessoas boas ao seu redor e todos com objetivos em comum, um ajudando o outro. Tudo na vida é assim”, reflete.

Alamy recorda também de um momento de muita emoção em sua trajetória no ciclismo. Em 2021, durante a pandemia, mas já no período pós-vacina, ele e 10 amigos fizeram o caminho da fé no Brasil, saindo de Santa Rita do Passa Quatro (o caminho tradicional começa em Águas da Prata) até Aparecida do Norte, em São Paulo.

“Foram 420km na terra. Com paradas para dormir em lugares muito simples, alojamentos e pousadas, com outros peregrinos. Foi uma viagem de bicicleta diferente de todas as outras que já fiz. O especial, além do momento de pós-imunização, durante o período pandêmico que passamos, completava um ano do falecimento do meu pai. Após concluir subidas intermináveis, íngremes, calor intenso, uma emoção chegou e tomou conta do corpo. Foi um choro intenso, até extravasar a emoção e depois tive uma sensação de leveza, me senti quase flutuando. Foram sentimentos muito fortes: celebrações da vida, da amizade, das conquistas, e das partidas.”

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