A versão de Henrique Avancini sobre o fim da equipe Caloi

Ciclista afirma que a escolha de competir na estrada não foi o motivo do encerramento do projeto

Marcos
19 de novembro de 2025

Henrique Avancini – Foto de Fabio Piva

Por Marcos Adami
Foto de Fabio Piva/Red Bull Content

O fim do patrocínio da Caloi à equipe de Henrique Avancini, anunciado no dia 14 de novembro, é um duro golpe para todos nós que amamos o mountain bike. Confesso que errei ao não ouvir Henrique no artigo que escrevi sobre o fim da equipe. O mandamento número um do jornalismo é sempre ouvir as partes envolvidas.

Conversei com Henrique na tarde de 18 de novembro e bastaram 38 minutos de conversa para compreender o encerramento do ciclo de 11 anos do patrocínio da Caloi à sua equipe. Henrique relatou que ficou arrasado com o término da parceria, mas não decepcionado. Afinal, são muitos anos de relacionamento com a marca. Como o profissional que é, entendeu o posicionamento da empresa. Uma equipe de mountain bike bem estruturada como a dele exige um investimento significativo. Fabricantes de bicicletas não vivem de paixão, mas de vendas.

As coisas mudaram na casa Caloi. Chegaram novos rostos e a saída do diretor Eduardo Rocha, amigo e grande incentivador de Henrique, não facilitou o cenário. Ainda no primeiro semestre deste ano, Henrique percebeu que o futuro da equipe estaria comprometido em razão da mudança na mentalidade e no direcionamento dos recursos de marketing da empresa.

Henrique tinha o sonho de viver a experiência de competir no ciclismo de estrada. A direção da Caloi foi informada, e nada foi feito às ocultas. No entanto, não é tarefa simples encontrar equipes e oportunidades que atendam às exigências específicas do ciclismo de estrada UCI e que utilizem bicicletas das marcas do grupo Pon. A equipe eslovena Factor Racing acabou se tornando a porta de entrada para o ciclismo de estrada.

É importante lembrar que Henrique deixou a equipe de fábrica da Cannondale com o maior salário do momento e recusou convites de outras equipes de fábrica para perseguir o sonho de ter sua própria estrutura. A Caloi Henrique Avancini Racing era a maior da América Latina e dispunha de orçamento adequado aos seus objetivos. Henrique colocou toda a energia no novo projeto, com um salário anual simbólico para levar a equipe adiante.

O mountain bike brasileiro vai sentir falta da equipe de Avancini. A estrutura ímpar e dedicada a formar e desenvolver ciclistas abrirá uma lacuna por aqui. Henrique sempre teve o cuidado de manter seus atletas por várias temporadas e respeitar o tempo de cada um. Com o feedback da equipe, a Caloi lançou bicicletas competitivas, de geometria moderna e bem acertada. Ter produtos no pódio de competições de alto nível é extremamente relevante para a imagem e o marketing de qualquer marca. Esta missão Henrique cumpriu com sucesso.

Em tempo: as regras divulgadas no fim de 2024 para a Copa do Mundo — o principal campeonato da modalidade — dificultaram bastante a vida de ciclistas nascidos em países como o nosso. Para disputar uma etapa da Copa do Mundo, não basta ter um orçamento generoso. É preciso “merecer”, o que significa estar bem posicionado no ranking mundial, ser campeão nacional, integrar uma equipe forte e bem ranqueada, entre outros critérios. É verdade que existem os chamados convites wild cards, mas ficam a critério dos senhores lá do Hemisfério Norte, os mesmos que retiraram a espetacular etapa de Araxá do calendário.

Não creio que o novo regulamento tenha influenciado diretamente na decisão da Caloi de descontinuar o patrocínio à equipe de Avancini, mas certamente comprometerá o futuro de Galinski, Sabrina, Eiki e de todos os mountain bikers — brasileiros ou não — que não ostentam a camisa de campeão nacional da temporada. Ver novamente um brasileiro no pódio da Copa do Mundo pode levar algum tempo.

O momento é complicado e o corte de verbas é generalizado, inclusive para equipes europeias de médio porte. Henrique revelou que foi procurado por estrangeiros que precisam de uma estrutura para permanecer no esporte.

Henrique não deu detalhes, mas vai continuar seu projeto pessoal no esporte nas próximas temporadas. Com a carreira vitoriosa que construiu não faltarão boas oportunidades.

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