Por Marcos Adami
Foto de Felipe Almeida
Recebi com tristeza a notícia do fim do patrocínio da Caloi à equipe de Henrique Avancini. O comunicado oficial chegou na sexta-feira, véspera do feriado de 15 de novembro, e informava o fim do ciclo de 11 anos de apoio da marca ao time comandado pelo mountain biker brasileiro de maior sucesso em nossa história.
No início de 2023 fui convidado para a apresentação da equipe Caloi-Henrique Avancini Racing, em Petrópolis. Tinha imprensa em peso e marcas apoiadoras de montão. Foi um baita evento e veio gente até da Itália e a estrutura era de primeira. Possivelmente a melhor da América Latina.
A ideia de uma equipe brazuca de alto nível no circuito mundial é linda mas custa caro, pensei. O mountain bike é movido a euro, que vale mais de seis vezes o real. Participar de um calendário internacional como era o plano seria um desafio orçamentário antes de tudo.
A equipe tinha Ulan Galinski, Cainã Oliveira e Sabrina Oliveira. Cainã, que não é parente de Sabrina, fez três temporadas e migrou para o ciclismo de estrada. Em fevereiro deste ano fui novamente a Petrópolis para a apresentação da equipe de mountain bike de 2025, em um evento cheio de paixão e um pouco mais modesto. Conheci a Avancini Bikes, quartel-general da equipe e uma senhora loja, de muito bom gosto e que desafia o momento crítico que o mercado de bikes vive desde o fim da pandemia.
Galinski era o principal nome da equipe. O querido baiano do Vale do Capão nunca escondeu a pretensão de correr o maior número possível de etapas da Copa do Mundo e estar entre os top do ranking mundial. Acredito que ele correu bem menos do que gostaria e terminou a temporada em 16º no ranking UCI. Galinski, filho de francês e com nacionalidade europeia, fala perfeitamente a língua de Pauline e de Koretzky e a esta altura já deve ter arrumado alguma equipe na Europa para as próximas temporadas. Torço pelo sucesso de Sabrina e de Eiki, que são jovens e devem se encaixar em breve.
A Caloi não deve apoiar nenhuma equipe no curto prazo e não é difícil imaginar o motivo. O grosso do faturamento da empresa vem de bicicletas de lazer e mountain bikes de entrada. A tendência é que as bikes de mobilidade urbana – elétricas ou não – cresçam no futuro próximo. O marketing de uma equipe profissional de mountain bike não chega lá no grande público que consome bicicletas de até R$ 5 mil.
A maioria dos consumidores nem sabe quem é Ulan, Sabrina, Eiki e, quiçá, o próprio Henrique Avancini, que suou bastante na Escócia para trazer o título mundial de marathon para o Brasil com uma Caloi em 2023. O orçamento de marketing é cuidadosamente alocado em opções mais visíveis e abrangentes.
Em março deste ano Avancini começou a correr ciclismo de estrada para a equipe Factor Racing, da Eslovênia. Ir atrás de sonhos e buscar novas experiências é tudo de bom, não fosse o detalhe da marca da bicicleta que dá nome à equipe. A Factor não está sob o chapéu do grupo Pon, a poderosa corporação dona da Caloi e de marcas como Cannondale, Cervélo, Gazelle, Focus, Santa Cruz, Mongoose e tantas outras. Até a Volkswagen e a Porsche estão sob o guarda-chuva do grupo holandês com volume de negócios anual de 10 bilhões de euros.
Com tanta marca irmã da Caloi para escolher, Avancini optou por correr o Campeonato Mundial de Gravel UCI com uma bicicleta Factor. Esta prova “deu ruim” como sabemos. É difícil dizer o quanto estas andanças pelo ciclismo e pelo gravel a bordo de uma bike da concorrência influenciaram o fim do patrocínio de 11 anos à equipe de Avancini, mas acho mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que a Caloi ter gostado desta história.
Assim como Ulan, Avancini também tem cidadania europeia e certamente saberá usar seu prestígio e sua experiência internacional para continuar seu trabalho, no Brasil ou na Europa, no mountain bike, estrada ou gravel.






