Texto e fotos de Gabriel Vargas
As cintas cardíacas de braço com sensor óptico são um tipo de produto relativamente recente e que tem ganhado destaque nos últimos dois ou três anos. Há cada vez mais opções disponíveis no mercado, de marcas como Polar, Coros, iGPSPORT, entre outras.
Sendo um produto que promete muitas vantagens em relação às cintas peitorais e aos sensores de pulso, percebemos que era necessário testar uma cinta de braço em condições reais de uso, com uma avaliação criteriosa. O Bikemagazine obteve uma unidade do sensor HR70, gentilmente cedido pela fabricante chinesa iGPSPORT, para que pudéssemos conhecer e avaliar esse tipo de tecnologia, e claro, testar o modelo e publicar nossas impressões após o uso. Como sempre, nossas avaliações são isentas.
A iGPSPORT HR70 tem 2 anos de garantia pelo fabricante e está disponível entre R$ 360,00 e R$ 400,00 (julho de 2026). No Brasil a importação é realizada pela Lobão Bikes.
VÍDEO – AVALIAÇÃO iGPSPORT HR70
Características e primeiras impressões
O sensor HR70 pesa apenas 20,3g e mede 50 x 30 x 15mm, sendo um produto bem compacto. A braçadeira elástica é ajustável de 220 a 330 mm e é substituível (mas o importador alega que não há estoque de reposição no momento). O fechamento da cinta é feito por meio de um pequeno velcro. Há uma bateria interna com duração de 65h (indicado pelo fabricante). O carregamento é feito por um cabo com contato magnético.
Sensores ópticos deste tipo utilizam a tecnologia “PPG”
Basicamente, pequenos LEDs na parte interna do sensor emitem luz contra a pele, e um fotodetector mede a quantidade de luz refletida de volta. Como o fluxo sanguíneo varia a cada batimento cardíaco, o volume de sangue nos vasos próximos à pele muda constantemente, alterando a quantidade de luz absorvida versus a luz refletida.
O sensor capta essas variações e converte esse padrão em frequência cardíaca em tempo real. É a mesma tecnologia usada em smartwatches e smartbands, mas aqui aplicada ao braço, região que tende a oferecer leitura mais estável que o pulso durante movimentos variados e impactos.
Há dupla conectividade (Bluetooth 5.0 e ANT+), permitindo pareamento com ciclocomputadores GPS, relógios e aplicativos, como Strava (no celular) e Zwift. Mas somente uma única conexão Bluetooth é suportada por vez, a resistência IPX7 sugere resistência a treino sob chuva e bastante suor.
A embalagem inclui o sensor com sua cinta elástica (sem reposição ou opções de medidas), um cabo carregador e o manual. A cor azul é a única opção disponível. O fabricante indica faixa de leitura entre 40 a 240 BPM.
Toda a configuração pelo app iGPSPORT Ride é muito fácil e intuitiva. Lá, é possível configurar zonas, alertas vibratórios, tempo para desligamento sem uso, etc. Para saber mais, acesse o vídeo ao final da matéria.
Os testes
A cinta iGPSPORT HR70 foi utilizada em treinos de bike na estrada e no rolo, bem como em academia (musculação) e corrida. Nos treinos de bike, nosso maior foco, recorremos ao método do teste simultâneo, em que o produto avaliado é utilizado junto com outro produto já conhecido e confiável.
Os treinos no rolo tiveram a cinta iGPSPORT HR70 conectada via ANT+ a um GPS iGPSPORT iGS630s, enquanto também foi utilizado um sensor Polar H10 com uma cinta peitoral de reposição U2e praticamente nova.
Já nos treinos de estrada, a HR70 foi comparada tanto com o Polar H10 quanto com um sensor Geonaute (Decathlon), em ambos casos utilizando uma cinta peitoral de reposição genérica fabricada na China já com alguns meses de uso. Ao todo foram aproximadamente 10 horas de uso durante a avaliação, distribuídas entre 3 treinos de ciclismo, duas sessões de musculação e uma corrida.
O gráfico abaixo sobrepõe os dados de frequência cardíaca de um treino realizado no rolo (em cima, trecho de aproximadamente 50 minutos) e de um treino realizado na estrada (uma repetição de subida de aproximadamente 1h25). Nos dois gráficos, a linha vermelha é a iGPSPORT HR70 (por cima no gráfico superior e por baixo no gráfico inferior), enquanto a linha azul é a cinta controle (Polar H10, no caso).
O que notamos é que, no treino indoor, os dois sensores leram a frequência cardíaca de maneira praticamente idêntica. Há alguns pequenos erros isolados de aproximadamente 2 bpm que duram apenas 1 ou 2 segundos, mas aconteceram com os dois sensores. Provavelmente estes erros estão relacionados a interferências, já que o ambiente em que o rolo está montado estava saturado de sinais de ANT+, Bluetooth e wi-fi.
Já o treino na estrada demonstrado no gráfico foi um teste duro para a cinta peitoral: temperatura ambiente entre 19 e 24 graus, umidade do ar abaixo de 40%, utilizando apenas uma camisa de ciclismo com fit relaxado.
Quem dá atenção aos dados de frequência cardíaca já sabe que essas condições são cruéis para cintas cardíacas peitorais que não estejam perfeitas (e muitas vezes até mesmo para as cintas novas!), já que o clima seco e a estática acumulada na jersey dificultam o contato elétrico entre a cinta e a pele. Por isso, há tantos erros e atrasos na leitura da frequência cardíaca peitoral.
Enquanto isso, a cinta óptica de braço HR70 funcionou conforme o esperado, sem picos de leitura isolados e sem travamentos nos dados (comum em cintas peitorais em más condições).
Em sprints e tiros de alta intensidade, não observei atraso perceptível em relação à Polar H10. O percurso tinha trechos com asfalto bem ruim, lombadas e até alguns trechos de paralelepípedo. Não identifiquei nenhum erro de leitura sob condições de trepidação e impactos.
É importante salientar que a iGPSPORT HR70 foi testada em pele clara, sem tatuagens, tanto sob a manga da camisa quanto exposta ao sol, e tanto no antebraço quanto no bíceps. Como tenho o braço bastante magro, percebi que a posição mais firme era no bíceps, em todas as situações de uso, mas também funcionou perfeitamente no antebraço.
O fato de estar abrigada da luz solar sob a manga ou bem exposta ao sol aparentemente não influenciou em nada na leitura. No gráfico acima, inclusive, ela foi usada exposta (com a manga da camisa dobrada) entre 1h05 a 1h20 do treino.
Utilizei as funções de luzes indicadoras de zonas e alertas de vibração na corrida. As luzes indicadoras são úteis caso você não tenha um relógio (por exemplo, se utiliza o celular para gravar as atividades, com apps como o Strava ou outros), mas acabei não recorrendo muito a elas. Já o alerta vibratório foi bastante interessante.
Defini um limite para que meu treino de corrida não ficasse muito extenuante, e a função de alerta cumpriu seu papel. Porém, como precisa ser configurada no app, acaba sendo útil apenas para situações específicas em que há um limite predefinido, como treinos de baixa intensidade.
No uso, o conforto foi excelente. Após alguns minutos de treino, é fácil esquecer que o sensor está no braço, sem pontos de pressão ou necessidade de reajustes durante as atividades. Em nenhuma das modalidades testadas (bike, corrida ou musculação) observei deslocamentos da cinta quando posicionada e ajustada corretamente.
Por fim, o maior empecilho no uso da cinta foi a interface com o vestuário. No frio, foi um pouco mais difícil de vestir e retirar o manguito. Nenhum grande problema, mas é um ponto de atenção. Ao utilizar com camisa de ciclismo de mangas elásticas bem justas, o uso do sensor de braço no bíceps também tornou o processo de vestir e ajustar um pouco mais trabalhoso. Novamente, nada grave.
Depois de utilizar o produto por quase 10 horas, a bateria ainda estava a 93%. Um ponto de preocupação é a durabilidade do elástico e do velcro. Embora pareçam de boa qualidade, é impossível saber como estarão no longo prazo sob uso prolongado e recorrente. A conexão sempre foi fácil e estável com todos os dispositivos, seja por ANT+ ou Bluetooth.
Tatuagens e pele negra ou de maior pigmentação
Sensores ópticos com a tecnologia PPG, como dessa cinta, infelizmente podem não funcionar bem quando posicionados sobre áreas tatuadas e/ou pele negra. Um estudo experimental recente (Navalta et al., 2025) testou justamente um sensor de braço sobre pele tatuada e encontrou falhas de leitura significativas, principalmente em repouso. Contudo, o erro diminuiu conforme a intensidade do exercício aumentou.
Curiosamente, o mesmo estudo não encontrou relação entre a cor, densidade ou formato da tatuagem e o erro de leitura: o problema parece estar na presença da tinta em si, não em suas características específicas. O tom de pele também mostrou influência nos resultados desse estudo. Outro estudo (Mulholland et al., 2025), com sensores de pulso e braço em pessoas sem tatuagens, reforça que peles mais escuras estão sujeitas a mais falhas e dados ausentes nesse tipo de sensor, embora o impacto direto no valor da frequência cardíaca lida tenha sido pequeno na maioria dos aparelhos testados.
Outro possível fator é a presença de grande quantidade de pelos, mas isso pode ser contornado com ajuste cuidadoso da posição do sensor. Infelizmente, não tivemos a oportunidade de testar iGPSPORT HR70 sob nenhuma dessas condições.
Conclusões
As grandes questões a serem respondidas eram: essas cintas cardíacas de braço com sensor óptico funcionam mesmo? E vale a pena migrar da tradicional cinta peitoral para este outro tipo de cinta?
A primeira resposta é um categórico “sim”. A menos que a pigmentação na pele interfira, os dados são bastante fidedignos e confiáveis, mesmo com trepidações e impactos (desde que bem posicionada e ajustada). E o melhor: o sensor óptico irá funcionar da mesma maneira mesmo que a cinta esteja com suor e sal acumulado ou desgastada, pois ela não faz parte do processo de leitura (ao contrário das cintas peitorais).
E sim, também, para o destino das minhas cintas peitorais: pelo menos por enquanto, ficarão guardadas na gaveta e não tenho intenção nem vejo motivo para voltar a usá-las. Assim, pela experiência acumulada com a iGPSPORT HR70, pretendo utilizar somente a cinta cardíaca de braço com sensor óptico em meus treinos e provas.
Portanto, há dois principais motivos para investir nesse tipo de monitor cardíaco: um está relacionado aos dados em si. É muito comum ciclistas terem problemas de leitura da FC, até mesmo com cintas peitorais em boas condições.
Além disso, esse tipo de cinta é muito útil para corrida e outras modalidades, já que entrega uma leitura muito melhor do que os sensores de pulso de relógios e pulseiras smart; outro motivo é o conforto e a versatilidade no uso. Mesmo para quem está satisfeito com o funcionamento de uma cinta peitoral, o alívio de não ter a pressão e o aperto em torno do tórax é um fator muito convidativo para as cintas de braço.
Concorrentes / outros produtos semelhantes:
Polar Verity Sense (R$ 929,99); Wahoo HRM Tickr Fit (R$ 989,00); Coros HR; COOSPO HW9; COOSPO HW706, COOSPO H807, XOSS BBP, Thinkrider HW702, Cycplus H1, etc.
Prós:
- Confortável de usar
- Leitura confiável
Variedade de posições possíveis - Prático e com funcionalidades úteis de alerta vibratório e LED indicador
- Versátil para uso em outras atividades
- Autonomia da bateria interna
Contras:
- Pode interferir com o vestuário
- Preço superior a uma cinta peitoral comum
- Não lê HRV (dados de variabilidade da frequência cardíaca)
- Disponível somente na cor azul
A quem se destina: Ciclistas, corredores, usuários de academia etc.












