Julian Alaphilippe anuncia aposentadoria aos 34 anos e encerra carreira no ciclismo profissional

Bicampeão mundial, vencedor da Milan-Sanremo e de etapas nas três Grandes Voltas, francês encerra carreira imediatamente e abre mão do último ano de contrato com a Tudor

Bikemagazine
21 de agosto de 2026

Francês bicampeão mundial encerra a carreira profissional aos 34 anos

Do Bikemagazine
Fotos de divulgação Tudor Cycling Team

Julian Alaphilippe anunciou nesta sexta-feira, 21 de agosto, o fim de sua carreira profissional. Aos 34 anos, o francês da Tudor Pro Cycling decidiu encerrar imediatamente a trajetória no ciclismo, abrindo mão da última temporada prevista em seu contrato com a equipe suíça, que terminaria em 2027. O Tour de France de 2026 foi sua última competição.

Bicampeão mundial de estrada, Alaphilippe conquistou os títulos em Imola, em 2020, e Leuven, em 2021. Seu palmarès inclui ainda a Milan-Sanremo e a Strade Bianche, ambas em 2019, três vitórias na La Flèche Wallonne (2018, 2019 e 2021) e a Clásica San Sebastián de 2018.

O francês também venceu etapas nas três Grandes Voltas: Tour de France, Giro d’Italia e Vuelta a España. No Tour, sua campanha de 2019 tornou-se um dos capítulos mais marcantes de sua carreira. Alaphilippe vestiu a camisa amarela por 14 dias e terminou a classificação geral na quinta posição.

“Eu dei tudo o que tinha, e o ciclismo me deu tudo em troca. Por isso posso dizer com um sorriso: estou parando. Não com tristeza, mas com imensa gratidão. A todos os torcedores que me carregaram em cada subida: obrigado. Obrigado por tudo”, afirmou.

Multidão em Paris saúda Alaphilippe na última etapa do Tour de France 2026

Multidão em Paris saúda Alaphilippe na última etapa do Tour de France 2026

“É o momento certo”

Em uma entrevista de despedida publicada pela Tudor Pro Cycling, Alaphilippe explicou que a decisão foi tomada de maneira intuitiva, seguindo a mesma característica que marcou seu estilo de corrida.

“Porque é o momento certo. Sempre corri por instinto, atacando quando minhas pernas estavam queimando, e não quando os números diziam para fazer isso. Tomei essa decisão da mesma maneira. Acordei certa manhã em um training camp e senti: este é meu último ano. Sem tristeza.”

Ao recordar a carreira, a primeira palavra escolhida pelo francês foi “gratidão”.

“Sou um garoto de Saint-Amand-Montrond que começou no ciclocross e tocava bateria nas festas de musette com meu pai. Se alguém tivesse dito àquele garoto que um dia ele vestiria a camisa amarela por 14 dias e seria bicampeão mundial, ele nunca teria acreditado. Nada disso era algo que eu tinha por direito. Foi um presente. Um presente de muitas pessoas.”

2019, o ano que parou a França

Alaphilippe considera que a temporada de 2019 ultrapassou os limites de sua própria carreira. Naquele ano, venceu Milan-Sanremo e Strade Bianche e assumiu a liderança do Tour de France em Épernay.

“Quando vesti a camisa amarela em Épernay, pensei: dois dias, três talvez. Foram 14. As estatísticas dirão que perdi aquele Tour; na realidade, ele continua sendo uma das minhas maiores lembranças.”

Naquele Tour, Alaphilippe terminou em quinto na classificação geral, depois de sustentar a liderança durante duas semanas.

Imola e Leuven

Os dois títulos mundiais ocupam lugares diferentes em sua memória.

“Imola foi o mais pessoal. Cruzei a linha de chegada e apontei para o céu, para meu pai. E Leuven, um ano depois, foi a celebração que Imola não pôde ser por causa da Covid. Aquela multidão na Bélgica… A Bélgica se tornou minha segunda casa.”

Em Imola, Alaphilippe conquistou o primeiro título mundial de sua carreira com um ataque solo. Em Leuven, repetiu o feito um ano depois, tornando-se bicampeão mundial consecutivo.

A queda em Liège e os anos difíceis

A carreira também teve um período marcado por uma grave queda na Liège-Bastogne-Liège de 2022. Alaphilippe sofreu pneumotórax, fraturas de costelas e lesão na escápula.

“E depois vieram dois anos em que todo mundo tinha uma opinião sobre meus resultados. Às vezes isso doía mais do que a queda. Mas sabe o que eu lembro daquele período? Das pessoas que ficaram. Dos companheiros que continuaram pedalando por mim, dos torcedores que ainda me aplaudiam quando eu passava no topo em 50º.”

Para o francês, o apoio recebido durante aquele período teve significado especial.

“Ser apoiado quando você vence é fácil. Ser apoiado quando você perde é algo raro.”

A vitória no Giro de 2024

Um dos momentos importantes da recuperação de Alaphilippe aconteceu no Giro d’Italia de 2024, quando venceu uma etapa após passar cerca de 150 quilômetros em uma fuga e cruzar sozinho a chegada em Fano.

“Não foi minha resposta aos críticos, mas a mim mesmo — uma prova de que a chama ainda estava acesa.”

A vitória foi uma das mais marcantes de sua passagem pelo Giro e reforçou a capacidade do francês de voltar a produzir grandes atuações mesmo depois dos problemas físicos e das críticas que enfrentou.

Os dois últimos anos na Tudor

Alaphilippe deixou a Soudal Quick-Step ao final de 2024 e passou a defender a Tudor Pro Cycling a partir de 2025. A equipe suíça havia contratado o francês até o final de 2027.

Sobre sua passagem pela Tudor, Alaphilippe destacou outro papel que assumiu nos últimos anos: o de referência para os ciclistas mais jovens.

“Nesses últimos dois anos na Tudor, tive a oportunidade de retribuir um pouco, ajudando os ciclistas mais jovens a ler a corrida e transmitindo tudo o que tive a sorte de aprender em 16 anos. Ser ouvido e respeitado pela geração mais jovem é um privilégio.”

O francês também agradeceu à equipe pelo apoio e pela confiança recebidos nos últimos meses.

Nos dois últimos anos de sua carreira Julian Alaphilippe defendeu a equipe suíça Tudor

Nos dois últimos anos de sua carreira Julian Alaphilippe defendeu a equipe suíça Tudor – Foto de Cor Vos

“Eu preferiria perder dez vezes atacando”

Questionado sobre arrependimentos, Alaphilippe lembrou a derrota na Liège-Bastogne-Liège de 2020, quando comemorou antes da hora e foi ultrapassado por Primož Roglič na chegada.

“Foi um Monumento que perdi. Mas isso também é quem eu sou: corri com o coração, com os erros que vêm junto. Prefiro perder dez vezes atacando a vencer uma vez porque o carro da equipe ditou como eu deveria correr.”

A declaração resume uma das características mais marcantes de seu estilo: a disposição para atacar e correr de maneira agressiva, mesmo quando isso significava assumir riscos.

A família e o fim da rotina profissional

Alaphilippe afirmou que não sentirá falta de passar cerca de 250 dias por ano longe de casa.

“Finalmente poder aproveitar plenamente o tempo com meu filho é o que mais estou esperando. Mas, é claro, vou sentir falta do sabor do esforço. Dos momentos de camaradagem com os companheiros, nos training camps e nas corridas, da vida de equipe. Isso, definitivamente, vou sentir falta.”

O francês também fez questão de dividir a despedida com os torcedores que acompanharam sua carreira.

“Esta despedida é tanto deles quanto minha. A todos que ficaram ao lado de um trecho de paralelepípedos, de uma subida de montanha ou de uma estrada de vilarejo, na França, Bélgica, Itália e em todos os lugares: vocês me carregaram durante minha carreira.”

“Espero ter retribuído alguma coisa — algumas emoções, um motivo para gritar, um sorriso, uma lembrança compartilhada com seu pai ou sua filha à beira da estrada. Obrigado por tudo. De verdade, por tudo.”

“Preciso de paz e tranquilidade”

Alaphilippe deixou claro que não pretende falar mais sobre a decisão de encerrar a carreira.

“Vou parar de falar por um tempo também. Não darei mais entrevistas e não responderei a outras perguntas sobre essa decisão. Tudo o que eu queria dizer está aqui. Preciso de paz e tranquilidade e, mais do que tudo, de tempo com minha família. É onde quero estar agora.”

Com a decisão, o ciclismo perde um de seus personagens mais marcantes das últimas duas décadas. Entre títulos mundiais, clássicas, vitórias em Grandes Voltas e duas semanas de amarelo no Tour de 2019, Alaphilippe encerra aos 34 anos uma carreira construída em torno de ataques, emoção e uma relação incomum com o público.

O último capítulo foi escrito no Tour de France de 2026, sua despedida das competições profissionais.

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